Caixa de Suspiros




Acordei no meio da noite com vontade de escrever. A inspiração veio, finalmente, após mais de duas décadas de transpiração. Estou fora de casa e as condições não são as de costume. São três horas da manhã em Portugal e o poema pede urgência. O computador portátil está sem bateria e procuro por uma folha de papel – ou qualquer coisa que lembre uma e que me permita registrar o que o coração dita numa pressa sufocante. Consigo uma caneta e contento-me com a tampa de uma caixa de suspiros, comprados em uma padaria durante a tarde. Mesmo aliviado pelo nascimento do poema, encontrei imensas dificuldades para dormir. Do barulho do mar lambendo as areias da Nazaré, o vento esculpindo as falésias, a lembrança das mulheres dos pescadores com as suas sete saias causando assombramentos, tudo me manteve aceso, apesar do corpo prescrito e em petição de miséria. Quando acordei, refeito, o sol já ia alto, e os turistas haviam engolido as ruas. Fui até a cozinha e dei com a caixa de suspiros rabiscada com garatujos que mais pareciam hieróglifos, objetos de arquelogia inútil. Eu nunca tive a letra bonita, embora tenha preenchido inúmeros cadernos de caligrafia e tenha tido uma professora que se esforçou bastante para domar a minha mão. E ‘aquilo’ ali, na tampa da caixa de guloseimas, é inaceitável para um homem que foi alfabetizado e ganha o pão com as notícias que colhe desde o século passado. Vi, envergonhado, os versos do improvável poema serpenteando do topo até o abismo que se anunciou na parte inferior da caixa branca ainda com cheiro de confeitaria. Alinhamento zero. Letras disformes. Um A que mais se parecia um E. E um E que parecia outra letra, que não consegui distinguir. E isto me transportou a um tempo em que as pessoas tinham o costume de escrever. De manuscrever. Escreviam umas às outras. Escreviam para apaziguar os corações em cadernos de poesia e em diários que exorcizavam as suas almas. Escreviam ainda para preencher as fichas nas repartições públicas, desenhavam bilhetes com amenidades e mandavam cartas em papéis perfumados, rabiscados com corações de nanquim. O indivíduo era elogiado pela sua letra e há quem diga que a grafia de punho tem muito a dizer sobre a personalidade do seu dono. Infelizmente, caligrafias bem desenhadas como a de Machado de Assis, trêmulas como a dos apaixonados ou redondinhas como a das das normalistas já não existem mais. Os computadores e as mensagens eletrônicas roubaram do ser humano um dos seus maiores charmes e reinventaram a função do carteiro, que hoje recebe o seu salário para entregar contas de luz e televisão a cabo, e não mais o afeto envelopado, carimbado e selado com caras de personalidades mortas e maravilhas da flora e fauna do Brasil. Com a extinção da caligrafia, extinguiram-se também as dedicatórias, outra maravilha relegada pelo homem. Quem, sobrevivente daqueles tempos, nunca recebeu um livro ou disco com uma dedicatória do presenteador? Recebi muitas, generosas, bordadas na contracapa e nos encartes dos long-plays e nas primeiras páginas dos livros que chegavam nos aniversários e natais. A tecnologia que tomou conta do mundo extinguiu os discos e, hoje, compra-se música nos I-tunes das gravadoras e das lojas virtuais. Ela, a tecnologia, quer agora acabar com os livros, oferecendo-nos a impessoalidade dos e-books. E isto tira do leitor aquele sentimento de posse, que ele tem ao adquirir uma obra imprssa ou ser presenteado com uma delas. Sem falar do cheiro de um livro novo, que faz cosquinha no nariz e atiça a alma. Perfume de livro novo só não é melhor que o da pessoa amada. Tenho pensado muito sobre o assunto e, desde o poema escrito na tampa da caixa de suspiros em Portugal, preveni-me comprando um bloquinho de notas, que está sempre à mão. Se a inspiração voltar a me visitar, prometo lotar o minifúndio de papel com testamentos lavrados de punho próprio, poemas derramados, lembretes, cartas de afeto e o mais absurdo bem querer.

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